Trading

Como avaliar a qualidade de dados para análise de ativos: 5 aspectos fundamentais

Um ditado comum no mundo dos sistemas de informação, mas verdadeiro em qualquer processo de decisão (como análise de ativos no mercado financeiro) é: garbage in, garbage out, ou simplesmente, se entrar lixo saí lixo. Não importa a qualidade do modelo, da metodologia e das regras, dados errados vão sempre levar a decisões erradas.

Portanto, além de estudar os métodos de análise, ter o autoconhecimento emocional na hora de tomar (e executar) as operações, também é absolutamente fundamental saber distinguir o joio do trigo. No meio de tantas fontes de informação, como saber se tenho acesso a dados de qualidade? Este artigo mostra 5 aspectos a serem observados, independente de país, mercado ou provedores de serviços.


1 Dados oficiais

As fontes primárias de dados de mercado (Market Data) são as bolsas de valores. Isso é natural, afinal os negócios são fechados por intermédio da bolsa, sendo também sua responsabilidade efetuar a publicação dessas informações. A publicação de dados é, assim, um serviço prestado pelas bolsas de valores, hoje após as desmutualizações no mundo inteiro, as bolsas são em geral empresas de capital aberto e o serviço de market data é cada vez mais um elemento importante de receita nos balanços.

As bolsas, mediante contrato comercial, autorizam empresas a se conectarem diretamente em seus datacenters para receber, processar, armazenar e disseminar dados de mercado. Essas empresas são chamadas de vendors de dados. O licenciamento e a distribuição de dados são atividades intensivas do ponto de vista de capital, sendo necessário o estabelecimento e manutenção de parques tecnológicos que requerem um alto investimento em T.I e Telecom, bem como em pessoal de apoio.

Assim, um primeiro ponto a observar é se a empresa provedora de market data é vendor oficialmente autorizado pela bolsa. Nos sites de todas as bolsas do mundo é fácil encontrar uma listagem. No caso da BM&FBovespa, na data de fechamento deste artigo a listagem podia ser encontrada em: http://www.bmfbovespa.com.br/pt-br/servicos/servicos-de-informacao/sinal-de-informacoes/vendors.aspx?Idioma=pt-br

Caso a fornecedora de informações não seja vendor autorizado, ou seja, não esteja na lista da bolsa, uma série de garantias já caem por terra. Trata-se de um sinal importante.


2 Conexão direta e softwares intermediários

Em termos de velocidade e integridade de dados, uma regra se destaca: quanto menos sistemas estiverem no caminho melhor. Basta lembrar do velho conceito de geometria de que o menor caminho entre dois pontos é uma linha reta.

Não há muito o que fazer para descobrir a arquitetura e topologia de rede e de sistemas de cada fornecedor. Essas informações em geral são indisponíveis e mudam com frequência. Mas, existem dois pontos que fornecem pistas muito fortes sobre uma arquitetura inadequada. Para realizar essa análise bastam duas perguntas:

  • Quem fornece os dados é a mesma empresa que fornece o terminal/software onde os dados são usados?

  • Existe um software intermediário instalado na estação de trabalho que faz o meio de campo entre os dados e o terminal/software onde os dados são usados?

Se a resposta a qualquer uma dessas duas perguntas for sim, fique atento. Vamos entender a razão.

Empresa fornecedora de dados diferente da fornecedora do software/terminal

Por que alguns fabricantes como a Apple, projetam o hardware e o software? Porque essas empresas sabem que a solução só alcançará o patamar de excelência desejado se houver controle total do processo, otimização e compatibilidade plena.

Nenhum traje será melhor do que o feito sob medida, ou seja, aquele para as particularidades e requisitos de cada aspecto físico de determinada pessoa. Da mesma forma aqui, quando uma solução é de propósito geral, não há como haver uma série de otimizações, de integração plena. Não necessariamente o resultado final será ruim, não é isso que estamos colocando nessa análise, mas sim que o produto final sempre será um nível de qualidade inferior à solução “sob medida”.

Existência de software intermediário

Este item é muito importante, pois, normalmente é muito nocivo em termos de latência (velocidade) e integridade das informações. Uma boa solução vai enviar os dados diretamente para a aplicação que fará uso desses dados, sem necessitar de um software intermediário de conversão/alimentação.

Analise a arquitetura de sua solução. Existe outro software ou aplicativo que faz o tratamento dos dados antes da plataforma principal? Essa situação é muito inadequada, uma vez que será necessária uma etapa de tradução das informações e os dois softwares terão de se falar via protocolos de comunicação inter aplicações que estão longe de serem eficientes.


3 Força do especialista

Se uma pessoa precisa se submeter a uma cirurgia cardíaca ela procura um cirurgião especializado e não um clínico geral. Não que o segundo seja um mal médico em nosso exemplo, mas trata-se de um problema no qual se faz necessário conhecimento e práticas específicas para obter o melhor resultado possível.

De forma semelhante, em relação aos dados procure especialistas. A difusão de informações deve ser parte do core business, estar na missão da empresa. Só assim, tem-se certeza de que os recursos estão sendo direcionados da melhor maneira possível.

Por mais que a tecnologia faça parte da vida de todos nós hoje em dia e esteja presente de maneira intrínseca em todos os mercados e industrias, a força e know-how do especialista sempre será fundamental para uma aplicação tão crítica. Hoje, diversas instituições financeiras e corretoras mantém equipes de tecnologia para dar suporte, manter e até mesmo desenvolver sistemas para si e seus usuários. No entanto, o negócio dessas empresas segue e seguirá sempre sendo a intermediação financeira e serviços relacionados. Tecnologia da informação nesse contexto é atividade de apoio ao core business, muitas vezes usada para obter diminuição de custo final ao invés de ter como alvo a qualidade do serviço.

Dessa maneira, lembre-se sempre de ver quem está fazendo o seu check-up, se é seu médico ou o seu dentista.


4 Estrutura tecnológica

Sim, este é outro ponto difícil de identificar, mas precisa ser mencionado. A estrutura tecnológica para difusão de dados normalmente será composta por dois elementos principais: datacenters e linhas de transmissão de dados. A palavra de ordem aqui é redundância e capacidade.

  • Redundância: existe apenas 1 datacenter? Existe apenas 1 linha privada de comunicação entre o datacenter e a bolsa? Para garantir um alto tempo de disponibilidade é preciso redundância de datacenters e de linhas de comunicação. Problemas acontecem, sempre acontecerão. Agora qual a chance de uma interrupção de serviço ocorrer ao mesmo tempo em dois datacenters? E em três? Ou perder a comunicação em duas linhas de dados ao mesmo tempo? Redundância e qualidade de serviço andam lado a lado.

  • Capacidade: este item está relacionado ao dimensionamento dos elementos de hardware e software envolvidos no processo de disseminação das informações. A estrutura está adequada para operação normal, mas para momentos de anormalidade? Picos de volatilidade e de volume de dados, por exemplo. A estrutura comporta?

Como mencionado, este item é difícil de avaliar. Uma boa maneira é perguntar para a equipe de atendimento da empresa se existem políticas de serviço sobre esses assuntos. Um outro indicativo é o número de pessoas que trabalham na empresa. Empresas com poucas pessoas, muitas vezes não dispõem dos recursos necessários para realizar essa natureza de investimentos. Não se trata de regra e certamente existem exceções, mas, novamente, estamos falando de algo importante, mas difícil de mapear.


5 Flexibilidade dos dados disponíveis

Que informações de mercado chegam até você? O que consegue acessar? Em geral, quando falamos em Market Data, é importante avaliar os seguintes aspectos.

Flexibilidade da série de dados

Consigo acessar séries de dados em diferentes time frames? Temos dois grandes grupos de informações em termos de séries de dados, longo prazo e intraday. Longo prazo são informações empacotadas em nível diário, semanal, mensal, anual, etc. Intraday, por sua vez, representa as informações ao longo de um dia. São séries de dados de 60 minutos, 30 minutos, 15 minutos, etc.

O que mede a flexibilidade é o nível de acesso às séries. Quantas dessas é possível alcançar? Idealmente o sistema deve fornecer a possibilidade de contar com séries em qualquer periodicidade.

Administração de eventos corporativos

No mundo do Market Data eventos corporativos são acontecimentos com impacto direto na vida do papel, como dividendos, splits, grupamentos, etc. É fundamental compreender o impacto.

Suponha que o ativo XYZ esteja valendo R$ 20,00. A empresa anuncia que após as reuniões fica definido que será pago R$ 1,00 de dividendo por ação. Quando o ativo tornar-se ex-dividendo, o papel automaticamente passará a ser difundido no valor de R$ 19,00. Dependendo da metodologia de análise sendo empregada será necessário ou não efetuar o ajuste da base, ou seja, compensar esse R$ 1,00 de diferença nos dados passados.

Situação ainda pior para splits e grupamentos. Se, por exemplo, o ativo valia R$20,00 e a empresa decidiu fazer um Split de 10, o ativo passará a ser cotado por R$ 2,00 e todos os detentores do ativo terão 10 vezes mais em quantidade. Se não tratado de maneira apropriada o resultado será um “buraco “inexplicável na série de dados.

Tendência: modelagem e análise de micro eventos

O insumo básico de qualquer sistema de market data é a informação de negócios ou o trade. Atualmente, com o crescimento das operações automatizadas e operações cada vez mais rápidas, torna-se absolutamente indispensável contar com informações de tempos muito curtos, comumente o tick-by-tick ou negócio a negócio.

Observe se você tem acesso, por exemplo, a gráficos ou informações tick-by-tick. Esse tipo de série de dados já está sendo amplamente utilizada mundialmente e possivelmente, se já não integra, passará brevemente a fazer parte do dia-a-dia de todos os traders de alto desempenho.


Observações finais

Qualidade das informações é absolutamente essencial. Não adianta contar com a melhor metodologia de tomada de decisão do mundo se os dados forem imprecisos ou não atenderem os requisitos necessários para uma atuação eficiente no mercado.

Com esses 5 tópicos descritos, você tem condições de, com um bom grau de certeza, compreender e avaliar o nível de qualquer sistema de distribuição de dados. Naturalmente, existem particularidades, mas os aspectos descritos podem ser aplicados ao problema do market data em nível global.



O Martelo: Construindo o Padrão Simulador (Introdução)

Fique por dentro do mercado financeiro assinando nossa Newsletter.


Rua Dr. Timóteo, 782.
Porto Alegre - RS, Brasil
(51) 3014-8272 comercial@nelogica.com.br
CNPJ: 05.898.757/0001-68

Carregando...